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El Niño, Eleições e a Urgência de comunicar a Conservação da Natureza

A informação é uma das principais ferramentas para enfrentar as mudanças climáticas

Em poucos meses, os brasileiros deverão tomar duas decisões importantes.

A primeira será individual: como se preparar para um cenário de aumento dos eventos climáticos extremos associados à previsão de um novo episódio de El Niño.

A segunda será coletiva: escolher os representantes que definirão as políticas públicas dos próximos anos.

Embora pareçam temas distintos, ambos têm um ponto em comum. As decisões que tomamos hoje influenciarão diretamente nossa capacidade de enfrentar um clima cada vez mais instável.

Nesse processo, existe um elemento frequentemente subestimado: a comunicação para a conservação da natureza.

Ela não serve apenas para divulgar pesquisas, sensibilizar sobre a biodiversidade ou incentivar visitas a áreas naturais. Sua principal função é ajudar a sociedade a compreender as relações entre clima, conservação, qualidade de vida e desenvolvimento, permitindo que os cidadãos façam escolhas mais conscientes, seja no cotidiano, seja nas urnas.

A boa notícia é que a sociedade está cada vez mais interessada no tema. Um levantamento da Nexus Pesquisa mostrou que as buscas pelo termo “El Niño” cresceram mais de 900% em poucos meses, com o Paraná entre os estados que mais procuraram informações. Nas redes sociais, milhões de interações demonstram que a preocupação já não se limita aos efeitos do clima: cresce também a cobrança por ações concretas das autoridades.

Essa mudança revela a importância de um trabalho que costuma produzir resultados silenciosos, mas duradouros: comunicar a conservação da natureza. Quando a ciência é traduzida para uma linguagem acessível, as pessoas compreendem que proteger florestas, rios, manguezais e outras áreas naturais não é apenas uma pauta ambiental, mas uma estratégia para reduzir riscos, garantir água, proteger cidades e aumentar nossa capacidade de enfrentar eventos extremos.

Grande Reserva Mata Atlântica Região do Vale do Gigante – Foto de Gabriel Marchi

Hoje sabemos que a natureza é uma das melhores aliadas da adaptação climática. As chamadas Soluções Baseadas na Natureza — como conservar remanescentes florestais, restaurar matas ciliares, proteger áreas úmidas e recuperar ecossistemas degradados — reduzem enchentes, estabilizam encostas, melhoram a infiltração da água no solo, conservam a biodiversidade e ajudam a regular o clima. São investimentos que produzem benefícios ambientais, sociais e econômicos ao mesmo tempo.

Nesse contexto, o Paraná ocupa uma posição estratégica. O estado abriga parte da maior área contínua de Mata Atlântica bem conservada do planeta, território conhecido como Grande Reserva Mata Atlântica, um patrimônio reconhecido internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade, a produção de água, a estabilidade climática e o desenvolvimento sustentável.

Mais do que uma delimitação geográfica, a Grande Reserva tornou-se uma iniciativa que busca justamente aproximar as pessoas desse patrimônio natural. Reunindo 60 municípios dos estados do Paraná, de Santa Catarina e de São Paulo — mais da metade deles já formalmente comprometidos com seus princípios —, a iniciativa promove uma visão compartilhada de desenvolvimento baseada na conservação da natureza, no turismo responsável, na valorização da cultura local e na cooperação entre diferentes setores.

Mas talvez sua principal contribuição esteja justamente na comunicação. Ao produzir conteúdos, campanhas, experiências de visitação, sinalização turística integrada, redes de parceiros e ações de sensibilização, a Grande Reserva procura traduzir um conceito complexo em algo que faça sentido para a vida das pessoas. Afinal, ninguém decide proteger uma floresta apenas porque ouviu falar em biodiversidade. As pessoas apoiam sua conservação quando compreendem que aquele território produz água, reduz enchentes, protege o solo, regula o clima, fortalece a economia regional, gera oportunidades para as comunidades e reduz riscos para quem vive nas cidades.

É exatamente essa compreensão que transforma a conservação em uma agenda de interesse coletivo. Dessa forma, proteger a Mata Atlântica deixa de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma estratégia de desenvolvimento regional, segurança hídrica, prevenção de desastres e adaptação às mudanças climáticas.

Em ano eleitoral, esse debate torna-se ainda mais necessário. As mudanças climáticas não obedecem aos calendários eleitorais.

Elas continuarão produzindo impactos independentemente de quem estiver no poder. Mas a capacidade de resposta da sociedade depende diretamente das decisões tomadas pelos governos.

Os próximos presidente, governadores, senadores e deputados terão papel decisivo na formulação de políticas públicas, na destinação de recursos e no fortalecimento de medidas voltadas à adaptação climática, à proteção de mananciais, à gestão de riscos, ao ordenamento territorial, à restauração de ecossistemas, ao fortalecimento da defesa civil, à ampliação de áreas protegidas e aos investimentos em infraestrutura verde.

Por isso, votar também significa escolher projetos para o futuro climático do país, dos estados e das cidades.

 

Marina Cioato é profissional com formação em Direito e Comunicação Institucional, com atuação voltada à agenda ambiental e de fortalecimento institucional de organizações da sociedade civil. Sua trajetória integra conhecimento técnico e de estratégia de comunicação, com experiência em articulação institucional, produção de conteúdo, apoio a projetos de impacto e gestão de campanhas de comunicação. Mantém vínculo com a SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), contribuindo para iniciativas relacionadas à conservação da Mata Atlântica e à produção de natureza.

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