Representantes de oito iniciativas desenvolvidas entre o Maranhão e o Paraná compartilharam avanços, desafios e soluções para ampliar a restauração ecológica e a conservação dos ecossistemas costeiros brasileiros
Representantes de oito projetos dedicados à conservação e à restauração de manguezais em diferentes regiões da costa brasileira reuniram-se em 29 de julho para compartilhar resultados, desafios técnicos e estratégias capazes de fortalecer a proteção desses ecossistemas no país.
O encontro promoveu a integração das iniciativas apoiadas pelo Floresta Viva – Manguezais do Brasil, distribuídas entre o Maranhão e o Paraná. Participaram representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Petrobras e das organizações executoras: Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RJ), Fundação Vovó do Mangue (BA), Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA-RJ), Organização Sertaneja dos Amigos da Natureza (SOS Sertão-PB), Instituto Coral Vivo (BA), Fundação Sousândrade de Apoio à Universidade Federal do Maranhão (FSADU-MA) e Fundação Espírito-santense de Tecnologia (Fest-ES).

O Paraná foi representado pela SPVS, responsável pelo projeto Entre Mangues e Caranguejos, lançado em dezembro de 2023. A iniciativa prevê a restauração ecológica de 316 hectares na Reserva Natural Papagaio-de-cara-roxa, em Guaraqueçaba, em áreas que contribuem diretamente para os manguezais da Estação Ecológica de Guaraqueçaba.
Durante o encontro, Rodrigo Condé, consultor da SPVS para atividades de agrofloresta, apresentou o andamento do projeto, os desafios encontrados durante sua execução e as ações previstas para os próximos meses. A iniciativa já alcançou a meta de plantio nos 316 hectares e agora avança para a fase de monitoramento, fundamental para avaliar e assegurar os resultados da restauração ecológica.
Até o momento, foram plantadas mais de 30 mil mudas, muitas delas de espécies raras, ameaçadas e atrativas à fauna. Em parceria com a Associação MarBrasil e o Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Estadual do Paraná (Labec/Unespar), o projeto também fortalece o monitoramento do caranguejo-uçá e da vegetação de manguezal no Complexo Estuarino de Paranaguá. Estão previstas ainda capacitações voltadas à criação de oportunidades profissionais no turismo de natureza e a elaboração de mecanismos financeiros que possam ampliar a geração de ICMS Ecológico pelas unidades de conservação da região.
“O encontro de integração foi muito proveitoso. Pudemos realizar trocas técnicas com representantes de projetos distribuídos ao longo da costa brasileira, ampliar nossa visão sobre diferentes realidades e reforçar a importância de conservar e restaurar esse ecossistema tão relevante”, disse Condé.

Restauração beneficia manguezais e espécies ameaçadas
As áreas contempladas pelo Entre Mangues e Caranguejos foram, historicamente, utilizadas como pastagens para búfalos e estão localizadas nas bacias que contribuem para os manguezais da Estação Ecológica de Guaraqueçaba. A recuperação desses locais busca reduzir impactos sobre os ambientes costeiros e ampliar a produção de natureza em uma das regiões mais conservadas da Grande Reserva Mata Atlântica.
Criada em 1982 e administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Estação Ecológica de Guaraqueçaba protege um dos mais importantes remanescentes de manguezais do Sul do Brasil. Parte da unidade sobrepõe-se à Reserva Natural Papagaio-de-cara-roxa, mantida pela SPVS. A estação é reconhecida como Sítio Ramsar, designação internacional concedida a áreas úmidas de importância global. O Brasil possui atualmente 27 sítios reconhecidos pela Convenção sobre Zonas Úmidas.
O plano de restauração ecológica abrange os 316 hectares. As intervenções serão monitoradas por pelo menos dois anos, período em que será possível acompanhar o desenvolvimento das áreas e avaliar a efetividade das técnicas empregadas.
A restauração também deverá beneficiar o papagaio-de-cara-roxa, espécie ameaçada que ocorre exclusivamente em uma faixa estreita do litoral entre o Paraná e o sul de São Paulo. As áreas atendidas ficam próximas à Ilha Rasa, importante local de dormitório e reprodução da espécie. O trabalho prevê o enriquecimento da vegetação com árvores que ofereçam abrigo, alimento e locais de nidificação. Entre as espécies prioritárias está o guanandi, cujos frutos são consumidos pelos papagaios e cujas árvores adultas podem formar cavidades utilizadas pela espécie para a reprodução.

Monitoramento do caranguejo-uçá
Além da restauração ecológica, o Entre Mangues e Caranguejos fortalece o monitoramento do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie estreitamente relacionada à dinâmica dos manguezais e importante para a geração de renda e a segurança alimentar das comunidades costeiras.
As atividades de pesquisa abrangem a Reserva Natural Papagaio-de-cara-roxa e outras porções de manguezais da Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, incluindo áreas nos limites da Reserva Natural Guaricica, mantida pela SPVS em Antonina.
Até o momento, o projeto apoiou três monitoramentos de fauna e um de vegetação, além da instalação de dois novos pontos de monitoramento. A iniciativa fortalece o trabalho realizado desde 2019 pela Associação MarBrasil, pela Unespar e pelo ICMBio. Os dados coletados abastecem o Programa Monitora, desenvolvido pelo órgão federal ao longo da costa brasileira, e auxiliam a tomada de decisões sobre o manejo das unidades de conservação e a gestão dos manguezais no país.
Ambientes de transição entre a terra e o mar, os manguezais funcionam como berçários para diferentes espécies. Também contribuem para a manutenção dos estoques pesqueiros, a proteção da costa contra processos erosivos e eventos extremos, a retenção de sedimentos e a regulação do clima.
Esses ecossistemas têm grande capacidade de armazenar o chamado “carbono azul”, capturado e acumulado por ambientes costeiros. Sua conservação atende simultaneamente às agendas de proteção da biodiversidade, adaptação às mudanças climáticas e manutenção dos modos de vida e das atividades econômicas de comunidades tradicionais.

Conhecimento compartilhado entre diferentes territórios
O encontro permitiu que as organizações comparassem desafios encontrados em diferentes contextos ambientais, territoriais e sociais. Entre os temas discutidos estiveram métodos de restauração e monitoramento, participação comunitária e políticas públicas.
Segundo Condé, a troca com as demais iniciativas poderá contribuir para aperfeiçoar as próximas etapas do Entre Mangues e Caranguejos.
“Conhecer a realidade de outros projetos nos ajuda a desempenhar melhor nosso trabalho. Embora a latitude influencie as marés, a altura das árvores de mangue e o clima, os manguezais enfrentam problemas semelhantes de norte a sul do país. Alterações em suas bacias de contribuição, descarte de resíduos, falhas de gestão e pressões imobiliárias estão entre os principais desafios compartilhados”, completou o coordenador.
Ao reunir projetos executados em diferentes pontos da costa, a agenda nacional permite identificar problemas comuns e construir soluções adaptáveis a cada território. Essa integração é especialmente relevante diante da complexidade da restauração dos manguezais e das áreas que influenciam sua conservação — trabalho que depende da combinação entre conhecimento científico, experiência prática, políticas públicas e participação comunitária.
Entre os próximos passos discutidos estão a conclusão dos plantios, a continuidade dos monitoramentos e a realização de ações de limpeza com a participação das comunidades. Em setembro, diferentes projetos também deverão promover atividades relacionadas ao Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias.
Comunidades e políticas públicas
O Entre Mangues e Caranguejos também prevê ações de comunicação, relacionamento e articulação com comunidades, representantes do poder público e organizações que atuam na Grande Reserva Mata Atlântica.
A proposta é fortalecer atores locais e contribuir para a criação ou o aperfeiçoamento de mecanismos e políticas públicas capazes de ampliar os benefícios sociais, ambientais e econômicos proporcionados por áreas naturais bem conservadas.
O projeto contempla ainda capacitações em restauração ecológica e gestão para a conservação de manguezais e restingas, incorporando demandas e conhecimentos das populações locais ao desenvolvimento das ações.
Nos próximos meses, a SPVS deverá concentrar esforços na elaboração de uma minuta de mecanismo financeiro capaz de impulsionar a geração de ICMS Ecológico pelas unidades de conservação do território, dar continuidade ao monitoramento das áreas em restauração e realizar duas capacitações previstas pelo projeto.
Iniciativa nacional
O Entre Mangues e Caranguejos recebe apoio financeiro do Floresta Viva, por meio do Edital Manguezais do Brasil, gerido pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), com recursos do BNDES e da Petrobras.
Lançado em 2022, o edital previu investimento global de R$ 47,2 milhões para apoiar projetos de restauração ecológica de manguezais e restingas na costa brasileira. As iniciativas contempladas poderiam ter duração de até 48 meses e deveriam abranger pelo menos 200 hectares cada.
Entre as prioridades definidas pelo edital estavam a conservação da biodiversidade, o armazenamento de carbono, a geração de benefícios sociais e econômicos, a participação das populações locais e a permanência dos resultados da restauração no longo prazo.
Além da SPVS, participam como parceiros do Entre Mangues e Caranguejos a Associação MarBrasil, o Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Estadual do Paraná (Labec/Unespar) e o Núcleo de Gestão Integrada Antonina-Guaraqueçaba do ICMBio.
Sobre a SPVS
Fundada em 1984, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) é uma das mais relevantes organizações conservacionistas do Brasil, com foco na conservação da Mata Atlântica. Atua com inovação, base técnica sólida e visão restaurativa do desenvolvimento, valorizando a natureza como ativo estratégico para o bem-estar humano e para a adequada gestão territorial.
www.spvs.org.br.
Sobre a Grande Reserva Mata Atlântica
A Grande Reserva Mata Atlântica é uma iniciativa que reúne diversos atores para desenvolver ações de turismo sustentável na maior área contínua de Mata Atlântica do mundo, com cerca de 3 milhões de hectares conservados entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Reconhecida nacional e internacionalmente, promove o ecoturismo responsável, integrando patrimônio natural, cultural e histórico, e reforça o papel da conservação como base para o desenvolvimento do território. Os participantes compartilham a convicção que a preservação e a conservação da natureza são fundamentais para o equilíbrio do planeta e para as gerações futuras, e que o turismo pode ser uma atividade econômica positiva desde que realizada de forma responsável e sustentável.
Escrito por Claudia Guadagnin, assessora de imprensa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e da Grande Reserva Mata Atlântica.
claudia@spvs.org.br/41. 99803-4948.




