Estudo inédito na Região Metropolitana de Curitiba mostra que os locais mais bem conservados concentram maior capacidade de reduzir enchentes, armazenar carbono e garantir a recarga da água que abastece rios e aquíferos. Pesquisa pretende transformar evidências em políticas públicas para municípios brasileiros
Quando uma chuva intensa atinge uma cidade, a primeira imagem costuma ser a de ruas alagadas, rios transbordando, casas invadidas pela água e milhares de pessoas tentando minimizar prejuízos. Tradicionalmente, a resposta para esse problema tem sido a ampliação de galerias pluviais, canalizações, piscinões e outras grandes obras de engenharia.
Mas uma pesquisa desenvolvida na Região Metropolitana de Curitiba aponta que parte dessa infraestrutura já existe, e foi construída pela própria natureza ao longo de milhares de anos.

O estudo mostra que áreas naturais preservadas funcionam como uma infraestrutura silenciosa e permanente, capaz de absorver grandes volumes de água da chuva, reduzir o risco de enchentes, alimentar aquíferos, armazenar carbono e tornar as cidades mais resilientes diante dos eventos climáticos extremos.
As conclusões são do projeto Observatório Climático do Alto Iguaçu, iniciativa desenvolvida pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, que reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades para transformar conhecimento científico em instrumentos de planejamento urbano.
Mais do que produzir diagnósticos ambientais, o projeto busca responder a uma pergunta que ganha importância à medida que os eventos extremos se tornam mais frequentes: onde a natureza ainda protege as cidades — e como essas áreas podem ser incorporadas às decisões públicas.
“Durante muito tempo olhamos para essas áreas apenas pelo valor ambiental. O que conseguimos demonstrar agora é que elas também prestam serviços essenciais para o funcionamento das cidades. Elas armazenam água, reduzem enchentes, capturam carbono e ajudam a diminuir os impactos das mudanças climáticas. São uma infraestrutura natural que produz benefícios todos os dias, mesmo quando não percebemos”, explica Rafael Sezerban, coordenador do projeto.

Um mapa da infraestrutura
Ao longo do projeto, pesquisadores vêm analisando diretamente cerca de 6.200 hectares distribuídos entre Curitiba e Araucária, na região Metropolitana da cidade, abrangendo Unidades de Conservação e uma área de influência onde vivem mais de 100 mil pessoas.
Foram avaliados bairros como Tatuquara e Campo de Santana no município de Curitiba e Costeira, Thomaz Coelho e Tindiquera no município de Araucária, regiões que concentram importantes desafios relacionados à expansão urbana e à vulnerabilidade climática.
Para compreender como essas paisagens funcionam, a equipe reuniu um banco de dados com cerca de 115 estudos científicos, documentos técnicos e políticas públicas e aplicou a metodologia internacional InVEST (Integrated Valuation of Ecosystem Services and Tradeoffs), desenvolvida pelo Natural Capital Project, iniciativa formada pela Universidade Stanford, Universidade de Minnesota, The Nature Conservancy e WWF.

A ferramenta, utilizada em mais de 185 países e referência em aproximadamente 1.000 estudos científicos, permite quantificar serviços ecossistêmicos essenciais para o funcionamento das cidades.
Na região de atuação do Projeto, ela foi utilizada para modelar três funções fundamentais: recarga hídrica, mitigação de enchentes e armazenamento de carbono. Os resultados revelam um padrão consistente.
As áreas mais bem preservadas concentram a maior capacidade de infiltrar água no solo, alimentar aquíferos e reduzir o volume de água que escoa rapidamente para rios e ruas durante chuvas intensas.
Em sentido oposto, regiões mais impermeabilizadas apresentam maior vulnerabilidade hidrológica e menor capacidade de prestar esses serviços ambientais.
Na prática, isso significa que a própria configuração da paisagem influencia diretamente a intensidade dos impactos provocados pelas mudanças climáticas.
“Os mapas deixam evidente que não estamos falando de uma percepção. Estamos falando de evidências. Conseguimos identificar exatamente onde esses serviços ecossistêmicos estão sendo produzidos e onde eles estão sendo perdidos. Isso permite que os municípios tomem decisões baseadas em ciência”, pontua Rafael.

Uma reserva de água invisível sob os pés
Uma das descobertas mais expressivas do estudo está relacionada à água. A modelagem identificou que toda a bacia hidrográfica do Alto Iguaçu possui capacidade anual de recarga hídrica estimada em 3,7 bilhões de metros cúbicos de água por ano — volume correspondente ao saldo entre a precipitação e as perdas por evapotranspiração e escoamento superficial. Em termos comparativos, esse volume seria suficiente para abastecer aproximadamente 25 milhões de residências durante um ano.
Nos municípios diretamente contemplados pelo projeto, a contribuição estimada para essa recarga alcança 142,4 milhões de metros cúbicos anuais em Araucária e 32,7 milhões de metros cúbicos em Curitiba.
Esses números ajudam a explicar por que áreas naturais vêm sendo cada vez mais reconhecidas por especialistas como parte da infraestrutura hídrica das cidades.
Enquanto o concreto acelera o escoamento superficial, solos preservados funcionam como grandes reservatórios naturais, permitindo que a água infiltre lentamente e mantenha vivos rios, nascentes e aquíferos mesmo após o período das chuvas.

Carbono estocado, clima mais equilibrado
O levantamento também dimensionou outro serviço prestado pelas áreas naturais: o armazenamento de carbono.
Nas áreas inventariadas, a média encontrada foi de 137,94 toneladas de carbono por hectare, resultando em um estoque estimado de aproximadamente 167,2 mil toneladas de carbono, equivalente a cerca de 613 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂).
Fragmentos maiores e mais conservados apresentaram os maiores estoques, reforçando seu papel não apenas na mitigação das mudanças climáticas globais, mas também na regulação térmica e na manutenção do conforto ambiental nas cidades.
Em um cenário de aumento das temperaturas e eventos extremos, esses remanescentes passam a exercer funções semelhantes às de equipamentos urbanos estratégicos, embora ainda raramente sejam reconhecidos dessa forma pelas políticas públicas.

Onde a cidade perde proteção
As modelagens permitiram identificar espacialmente onde esses serviços estão sendo produzidos e onde eles vêm sendo perdidos.
Áreas preservadas, como remanescentes existentes em Campo de Santana e em porções rurais de Araucária, apresentaram elevada capacidade de infiltração de água e armazenamento de carbono.
Já bairros mais urbanizados, concentram maiores níveis de impermeabilização do solo e, consequentemente, maior vulnerabilidade aos efeitos das chuvas intensas.
Em outras palavras, o estudo confirma cientificamente uma relação cada vez mais evidente nas cidades brasileiras: quanto menos natureza permanece na paisagem, maior tende a ser o risco hidrológico.
Da ciência às políticas públicas
Embora os estudos já tenham sido oficialmente entregues às prefeituras de Curitiba e Araucária, o objetivo do projeto vai além da produção de conhecimento.
A próxima etapa prevê a formação de servidores públicos, lideranças comunitárias e jovens lideranças climáticas, além da elaboração de propostas de políticas públicas municipais capazes de incorporar essas evidências ao planejamento urbano.
A expectativa é que, a partir de 2027, os municípios passem a utilizar essas informações para orientar decisões relacionadas ao uso do solo, conservação de áreas naturais e adaptação às mudanças climáticas.
Mais do que proteger a biodiversidade, a proposta é produzir cidades mais seguras, resilientes e preparadas para enfrentar eventos extremos.

Um novo olhar sobre a natureza
Para Clóvis Borges, diretor da SPVS, durante muito tempo a natureza foi vista como um obstáculo ao desenvolvimento urbano, mas, hoje, sabe-se exatamente o contrário. “Quanto mais avançam as mudanças climáticas, mais evidente fica que produzir natureza também é produzir segurança para as pessoas”, pontua.
O Fórum Econômico Mundial vem alertando, há quase uma década, que eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas figuram entre os maiores riscos para a economia mundial.
Nesse contexto, estudos como o desenvolvido no Alto Iguaçu ajudam a consolidar uma mudança de paradigma.
Áreas naturais deixam de ser compreendidas apenas como espaços destinados à conservação da biodiversidade e passam a ser reconhecidas como parte da infraestrutura essencial ao funcionamento das cidades.
Produzir natureza, nesse cenário, também significa produzir segurança climática, disponibilidade de água, estabilidade econômica e qualidade de vida.
Porque, diante das mudanças climáticas, proteger a natureza deixou de ser apenas uma agenda ambiental. Tornou-se uma estratégia de desenvolvimento urbano e de proteção das pessoas.
Sobre a SPVS
Fundada em 1984, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) é uma das mais relevantes organizações conservacionistas do Brasil, com foco na conservação da Mata Atlântica. Atua com inovação, base técnica sólida e visão restaurativa do desenvolvimento, valorizando a natureza como ativo estratégico para o bem-estar humano e para a adequada gestão territorial.
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Escrito por Claudia Guadagnin, assessora de imprensa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e da Grande Reserva Mata Atlântica.
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