Reduzir a restauração a simples plantios ignora a complexidade dos ecossistemas; é preciso integrar biodiversidade, serviços ecossistêmicos e prioridades regionais para gerar resultados reais
Embora genericamente assimilada como a forma mais importante de conservar a natureza, a restauração de áreas degradadas é apenas uma das possíveis intervenções que podem ser colocadas em prática quando o objetivo é a conservação da biodiversidade. E nem sempre é a prioridade, dependendo da região e do contexto específico.
As práticas definidas como “restauração” também são bastante variadas, de acordo com os objetivos estabelecidos. O que mais tem se consolidado nos últimos anos no Brasil são os plantios de mudas — nativas ou exóticas — voltados à fixação de carbono, agenda intrinsecamente ligada a um mercado que cresceu de forma significativa nas últimas duas décadas.
Nesse caso, a métrica estabelecida é a projeção de toneladas de carbono capazes de ser mantidas na forma de vegetação, geralmente a partir de áreas totalmente degradadas, até a formação, ao longo dos anos, de uma cobertura vegetal apta a cumprir esse papel. O ponto crucial é perceber que muitas dessas iniciativas têm pouco ou quase nenhum valor no que se refere à efetiva “restauração ecológica”.
Na prática, trata-se de áreas pobres em biodiversidade, caso não exista um processo mais aprofundado e de longo prazo que tenha como meta a construção de uma diversidade de espécies capaz de representar ganhos significativos em conservação. Não se trata de condenar tais práticas — que têm um propósito específico e podem ser efetivas nesse sentido —, mas sim de reconhecer seus limites.
O que se tornou praxe, no entanto, é colocar todas as modalidades englobadas pela terminologia “restauração” como se representassem ações equivalentes de conservação da biodiversidade, o que acaba gerando um entendimento equivocado de parte da sociedade. O simples plantio de árvores consolidou-se no imaginário popular como a melhor forma de conservar a natureza, quando, na realidade, não é.

Segundo o trabalho publicado pela Fundação Florestal do Estado de São Paulo (Conceitos e definições correlatos à ciência e à prática da restauração ecológica, 2011):
“A ecologia da restauração é uma área nova e emergente da ciência e sua aplicação prática, a restauração ecológica, tem sido amplamente empregada em diferentes regiões do Brasil como medida para reverter o processo de degradação e potencializar a conservação da biodiversidade e a geração de serviços e bens ecossistêmicos. Contudo, o uso inconsistente e a falta de compreensão e de consenso sobre definições e conceitos envolvidos na restauração ecológica e na ecologia da restauração geram equívocos técnicos e também didáticos.”
Mais do que desejável, é obrigatório definir com clareza o objetivo e o resultado esperado de cada tipo de iniciativa genericamente classificada como “restauração”. Também é necessário haver um direcionamento mais acurado, que promova intervenções capazes de garantir um processo adequado de recuperação de áreas degradadas, assegurando não apenas a conservação da biodiversidade, mas também a provisão plena dos serviços ecossistêmicos dessas áreas.
É fundamental compreender que, em biomas tão devastados como a Mata Atlântica, as ações de preservação de fragmentos ainda em estágio médio e avançado representam prioridade nos processos de restauração. Ou seja, a proteção dos remanescentes existentes é o primeiro passo para uma estratégia consistente.
Em ecossistemas associados, como a Floresta com Araucária e os Campos Naturais — criticamente ameaçados e reduzidos a uma fração mínima de áreas bem conservadas —, não faz sentido concentrar esforços em iniciativas convencionais de restauração em áreas já totalmente degradadas, sem antes garantir a proteção desses remanescentes.
Recentemente, em muitas regiões do mundo, práticas de refaunação começaram a ganhar espaço como estratégias voltadas à restauração ecológica. É sabido que as chamadas “florestas vazias” — caracterizadas pela ausência de fauna — sofrem perda significativa de funções ecológicas, como a dispersão de sementes, o que compromete sua regeneração. No Brasil, intervenções desse tipo ainda são raras, mas os exemplos pontuais em andamento indicam uma tendência de crescimento.
Um entendimento mais amplo de que áreas naturais bem conservadas são áreas de “produção de natureza” — e de que esses insumos são quantificáveis e monetizáveis — colabora de forma substancial para priorizar ações de restauração ecológica mais completas e customizadas, região por região. Isso também abre caminho para a criação de novas fontes de financiamento.
Às vésperas da COP-30, talvez pela primeira vez, as agendas do Clima e da Biodiversidade se aproximem de forma mais qualificada. Com essa oportunidade à vista, será fundamental definir quais prioridades receberão os recursos esperados para o enfrentamento desses desafios globais, entre elas, a conservação e a restauração de áreas naturais. Novos editais e programas precisam estabelecer critérios robustos, capazes de exigir ações de conservação efetivas, que em nada se resumem a práticas simplistas, homogêneas ou de curto prazo.
Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental).




