A Posigraf, gráfica do Grupo Positivo foi pioneira no país ao adotar uma RPPN como parte de sua política empresarial. Duas décadas depois, colhe resultados ambientais, reputacionais e operacionais — provando que biodiversidade e competitividade caminham juntas
Muito antes de a sustentabilidade se tornar tema obrigatório no mundo corporativo, a Posigraf decidiu integrar a conservação da natureza ao centro da gestão estratégica. Em 2003, a gráfica do Grupo Positivo uniu-se à SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) e à família Campanholo para apoiar a proteção da RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Mata do Uru, um dos últimos remanescentes bem conservados de Floresta com Araucária no Paraná, ecossistema associado ao Bioma Mata Atlântica.
A iniciativa — inédita no setor gráfico — consolidou uma agenda que evoluiu para certificações internacionais, neutralização de emissões e uma cultura interna orientada por resultados ambientais mensuráveis.
Nesta entrevista, Gilberto Alves da Silva Junior, diretor da Posigraf, detalha como essa trajetória moldou a identidade da empresa, influenciou decisões estratégicas e fortaleceu o entendimento de que conservar a natureza é investir no futuro do próprio negócio.

1. A adoção da Mata do Uru pela Posigraf foi uma iniciativa inédita no setor gráfico. Como surgiu essa história?
Essa história começa com sensibilidade e visão de futuro. No início dos anos 2000, a família Campanholo, proprietária da área, buscava apoio para manter sua floresta em pé. O então diretor da Posigraf, Giem Guimarães, conheceu o caso e enxergou ali uma oportunidade de fazer diferente — de unir a indústria e a conservação. Foi assim que, em 2003, firmamos a parceria com a SPVS e adotamos a área que hoje conhecemos como RPPN Mata do Uru. Desde então, essa floresta é parte da nossa identidade e do nosso propósito empresarial.
2. A Mata do Uru é uma das últimas florestas com araucária em bom estado no Paraná. Qual é o valor dessa área para a Posigraf e para o território?
Ela é um patrimônio ambiental e cultural. Estamos falando de um ecossistema que cobre menos de 3% de sua extensão original. A Mata do Uru é um oásis em meio a uma região marcada por agricultura e reflorestamentos. São mais de 128 hectares com biodiversidade riquíssima, árvores centenárias e um sistema hídrico com 34 nascentes e 40 cursos d’água. Essa floresta protege o solo, regula o clima e garante disponibilidade de água — algo essencial para a nossa atividade. Por isso, dizemos que conservar é também investir no futuro da indústria.
3. Qual o papel da água nesse vínculo entre a conservação da biodiversidade e a operação da empresa?
A água é um recurso essencial para a indústria gráfica, e a sua disponibilidade está diretamente ligada à conservação da biodiversidade. Ao proteger as nascentes e o entorno da Mata do Uru, garantimos a regulação natural do ciclo hídrico, o que reduz riscos operacionais e assegura a continuidade dos nossos processos produtivos. Além disso, a gestão responsável da água é um indicador estratégico dentro do nosso planejamento de sustentabilidade, reforçando o compromisso da Posigraf com a eficiência e a mitigação de riscos climáticos.
4. A SPVS é parceira da Posigraf desde o início desse projeto. Como essa relação tem contribuído para a manutenção e o sucesso da Mata do Uru?
A parceria com a SPVS é um dos pilares de chancela do projeto. Ela nos proporciona suporte técnico especializado e metodologias reconhecidas de conservação da natureza. Essa colaboração garante que as ações realizadas na Mata do Uru estejam alinhadas às melhores práticas de gestão ambiental e reflitam resultados concretos. Ao longo dos anos, tem sido também uma parceira estratégica na evolução do nosso modelo de sustentabilidade ambiental, contribuindo para nossa reputação como empresa comprometida com a conservação.

5. Além de conservar, a Posigraf também neutraliza emissões e mensura impactos ambientais. Como essa jornada evoluiu?
Nossa experiência com a Mata do Uru despertou o desejo de medir e ampliar os benefícios ambientais. Em 2008, sob a direção do Giem, foi criado o Selo Carbono Zero, que permite neutralizar as emissões de gases de efeito estufa dos nossos processos e também dos materiais produzidos para os clientes. Entre 2017 e 2024, neutralizamos mais de 9.000 toneladas de CO₂ equivalente, o que corresponde à conservação de cerca de 39 hectares de floresta com araucária. Esse trabalho nos levou, em 2014, a conquistar a certificação internacional LIFE, que reconhece empresas comprometidas com a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, expandido para além do carbono o nosso compromisso.
6. A Mata do Uru também tem papel importante no sequestro de carbono. Pode explicar melhor esse processo?
O sequestro de carbono é um serviço ecossistêmico fundamental. É o processo pelo qual o CO₂ é retirado da atmosfera e armazenado na vegetação e no solo, principalmente por meio da fotossíntese. Na Mata do Uru, a densidade e a maturidade da floresta permitem um alto estoque de carbono: cerca de 140 toneladas por hectare, acima da média desse tipo de ecossistema, que é de 120 tC/ha. Isso significa que a floresta funciona como uma grande bateria natural, capaz de reter carbono por séculos — desde que seja bem manejada e protegida. Quando falamos de mitigação das mudanças climáticas, preservar florestas antigas é tão importante quanto plantar novas.
7. Em 2025, a Posigraf promoveu uma imersão lúdica sobre ESG, envolvendo colaboradores de todas as áreas. Como foi essa experiência?
A imersão foi um marco importante na consolidação da cultura ESG dentro da Posigraf. Nosso objetivo foi traduzir conceitos em experiências práticas que conectassem cada colaborador ao propósito da empresa. Encerramos a jornada na própria Mata do Uru para que todos vivenciassem, de forma concreta, o impacto das nossas ações ambientais. Essa experiência reforçou a ideia de que sustentabilidade não é um projeto isolado, mas uma forma de conduzir o negócio com visão de longo prazo.
8. A Posigraf foi a primeira indústria brasileira a conquistar a certificação LIFE. O que esse reconhecimento representa para a empresa?
A certificação LIFE é um reconhecimento técnico e internacional da seriedade com que tratamos a relação entre negócio e biodiversidade. Mais do que uma certificação, ela traduz um modelo de gestão que mede resultados e direciona investimentos de forma estratégica. Essa conquista nos posiciona como referência no setor e fortalece nossa credibilidade junto a clientes, parceiros e à sociedade. Também demonstra que é possível aliar competitividade e conservação da natureza de maneira consistente e mensurável.

9. Que impacto essas ações têm dentro da cultura organizacional e de que forma podem inspirar outras empresas a buscarem melhorias operacionais e em resultados?
A sustentabilidade está incorporada à estratégia de negócios e à cultura da Posigraf. Isso se reflete em decisões mais conscientes, processos mais eficientes e um senso coletivo. Ao integrar práticas ESG ao dia a dia, fortalecemos nosso desempenho operacional e agregamos valor à marca. Acreditamos que a melhor forma de inspirar outras empresas é por meio do exemplo e de resultados concretos, mostrando que gestão ambiental e competitividade caminham juntas.
10. Depois de duas décadas, que lição a Posigraf leva dessa trajetória?
Aprendemos que sustentabilidade é uma construção contínua. O que começou como um projeto ambiental tornou-se parte da nossa estratégia empresarial. Essa trajetória nos mostrou que investir em conservação é investir na perenidade do negócio, na inovação e na confiança dos nossos stakeholders. Também reforçou a importância das parcerias e da transparência como fundamentos de um crescimento sólido e responsável.
11. Em poucas palavras, o que a Mata do Uru representa hoje para a Posigraf?
A Mata do Uru representa, hoje, o nosso compromisso contínuo com a biodiversidade e a confirmação da visão pioneira que a Posigraf, guiada pela liderança do Giem, teve lá atrás. Muito antes de o tema ganhar relevância no setor, já entendíamos a importância de proteger um remanescente de floresta e integrar a conservação à nossa estratégia de negócio. A área se tornou parte da nossa identidade corporativa, um marco da nossa responsabilidade ambiental e um exemplo concreto de que a indústria gráfica pode — e deve — ser protagonista na preservação da natureza.

Por fim, gostaria de destacar que todo esse trabalho é resultado de uma equipe engajada e de uma liderança que enxerga a sustentabilidade como um valor estratégico. Entendemos que a biodiversidade não se limita apenas à conservação de áreas naturais; ela está presente em tudo o que produzimos e consumimos. Nesse sentido, ampliamos nossa atuação por meio de iniciativas de economia circular, como a transformação de uniformes em cobertores e o envio de toners para serem convertidos em grelhas de boca de lobo, reforçando nossa responsabilidade ao longo de toda a cadeia de valor. Além disso, a Mata do Uru foi incorporada à comunicação institucional do grupo como um exemplo de como as empresas podem atuar diretamente na conservação da natureza. Seguiremos aprimorando processos, fortalecendo parcerias e inovando em soluções que unam desempenho econômico, responsabilidade ambiental e a conservação da biodiversidade como um todo.
Entrevista por Claudia Guadagnin, assessora de imprensa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).
claudia@spvs.org.br / 41. 99803-4948.




