Redescoberta rara e plantio conduzido na Reserva Natural Papagaio-de-Cara-Roxa, da SPVS, mostram como o maior contínuo de Mata Atlântica do país pode voltar a abrigar uma árvore símbolo da floresta
Era início de manhã na Reserva Natural Papagaio-de-Cara-Roxa, em Antonina, quando vi pela primeira vez uma muda de canela-preta (Ocotea catharinensis) pronta para ser levada ao solo. O cheiro úmido da mata, o barulho dos papagaios-de-cara-roxa ao longe e a lembrança de que aquela árvore quase desapareceu do mapa me fizeram entender a dimensão daquele instante. Não era apenas um plantio: era um reencontro com uma espécie que, por décadas, esteve à beira do esquecimento.
Uma árvore perdida na história da floresta
Até meados do século passado, a canela-preta era abundante nas florestas úmidas do Sul e Sudeste do Brasil. Em alguns levantamentos, chegou a representar quase um terço dos indivíduos de determinadas áreas. A exploração predatória, movida pelo alto valor de sua madeira, reduziu drasticamente essa presença. Hoje, figura na lista nacional de espécies ameaçadas, classificada como vulnerável. Em Santa Catarina, a situação é ainda mais grave: ali, a espécie é considerada criticamente ameaçada.
A Grande Reserva Mata Atlântica
A região onde essas mudas estão sendo reintroduzidas integra a Grande Reserva Mata Atlântica — um mosaico de áreas protegidas públicas e privadas no litoral sul de São Paulo, Paraná e norte de Santa Catarina. Com quase três milhões de hectares de florestas contínuas, é considerado o maior remanescente preservado de Mata Atlântica do país. Ali estão parques, reservas particulares e territórios comunitários que, juntos, formam uma paisagem única de alta biodiversidade.
A surpresa da frutificação
Em 2023, vivi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória como engenheiro florestal. O Mater Natura Instituto de Estudos Ambientais localizou árvores de canela-preta em frutificação — algo raríssimo de acontecer. Foi realizado um esforço para coleta de suas sementes, conduzida por colegas de profissão em uma operação que envolveu uma logística complexa. Estávamos diante de uma oportunidade única: cada fruto parecia carregar a chance de reescrever o futuro da espécie.
Parte dessas sementes foi destinada à produção de mudas, algumas das quais chegaram à SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental). A organização tem mais de 40 anos de história e mantém, há mais de 25, três Reservas Naturais no litoral do Paraná. Foi responsável por cultivar as sementes até que se transformassem em mudas prontas para o solo. O desafio não foi pequeno: enquanto espécies comuns da região germinam em cerca de dois meses, a canela-preta levou quase 180 dias. Cada pequena folha que brotava era celebrada como uma vitória.

Plantio e esperança
No fim de 2024, essas mudas começaram a ser plantadas em áreas em regeneração da Reserva Papagaio-de-Cara-Roxa, administrada pela SPVS. A técnica de enriquecimento florestal, ainda pouco aplicada no Brasil, nos permite introduzir espécies raras em locais onde a floresta já se recompõe naturalmente, aumentando a disponibilidade de alimento para a fauna. Caminhar entre as clareiras e abrir espaço para essas jovens árvores me fez perceber que restaurar é, acima de tudo, acreditar no tempo — no ciclo longo de uma floresta que só se completa com espécies como a canela-preta.
O projeto de enriquecimento é executado pela SPVS, com apoio financeiro do programa “Floresta Viva”, por meio do Edital Manguezais do Brasil, gerido pelo FUNBIO (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade), com recursos destinados pela Petrobras e pelo BNDES. O projeto promove diálogo com comunidades do entorno e também dá sequência à restauração de 316 hectares de antigas pastagens, em áreas que contribuem para os manguezais da Estação Ecológica de Guaraqueçaba, vizinha à Reserva Papagaio-de-Cara-Roxa.
Um futuro escrito nas árvores
Cada muda plantada pode viver por séculos, dar origem a novos descendentes e devolver equilíbrio à Mata Atlântica. Para mim, acompanhar esse processo é mais do que um trabalho: é uma experiência transformadora. A canela-preta, que um dia foi símbolo de devastação, agora renasce como árvore de esperança.
E é nesse renascimento que enxergo a mensagem maior: quando ciência, conservação e persistência caminham juntas, até aquilo que parecia perdido pode florescer de novo.
Artigo escrito por Rodrigo Condé, engenheiro Florestal pela UFRRJ e Mestre pela UFPR. É especialista em restauração ecológica e sistemas agroflorestais com foco em frutíferas nativas da Mata Atlântica.




