SIGA-NOS

ARTIGO – O desafio de incorporar os serviços da natureza às prioridades do desenvolvimento

Não faltam evidências, em escala global, que apontam para o declínio de um patrimônio historicamente subvalorizado: a biodiversidade e o conjunto de serviços prestados pelas áreas naturais. Ao longo dos últimos séculos, intensificamos de forma significativa a pressão sobre esses sistemas, impulsionados por um modelo de desenvolvimento ancorado na premissa equivocada de que a natureza não exerce papel relevante na geração de riqueza e no progresso das sociedades.

Mesmo em regiões onde ainda persistem áreas naturais bem conservadas, as pressões para sua conversão em outros usos permanecem elevadas. Agricultura, pecuária, silvicultura, mineração, expansão urbana e industrial seguem avançando sobre esses territórios. Ainda que a necessidade de mudança de rumo seja amplamente reconhecida, o modelo vigente apresenta tal grau de intensidade e consolidação que os avanços observados até o momento se mostram insuficientes.

A resistência à transição de uma matriz energética baseada em combustíveis fósseis para alternativas de menor impacto ambiental ilustra esse impasse. Mesmo diante do agravamento das mudanças climáticas e de seus efeitos cada vez mais evidentes, persistem entraves estruturais e interesses consolidados que dificultam essa transformação. Em paralelo, políticas voltadas à proteção do patrimônio natural seguem sendo questionadas, frequentemente sob o argumento de que a conservação representa um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

Esse descompasso torna-se ainda mais evidente quando observamos que, mesmo diante da intensificação de eventos climáticos extremos, o papel das áreas naturais na mitigação de impactos permanece amplamente negligenciado. São raros os contextos em que se observa uma conciliação consistente entre conservação e atividade produtiva como prática estruturante.

Resistência estrutural à mudança

É, no mínimo, preocupante constatar que, mesmo diante de evidências robustas e amplamente documentadas, nossa resposta coletiva permanece aquém do necessário. A transformação de modelos de desenvolvimento consolidados é, por natureza, um processo complexo, especialmente quando estruturas econômicas foram historicamente organizadas sem incorporar a conservação como premissa.

Nesse contexto, a adoção de novas práticas tende a ser percebida como custo adicional, e não como investimento estratégico. Essa leitura limitada contribui para a manutenção de padrões que, embora insustentáveis no longo prazo, ainda orientam decisões no presente.

Mesmo diante de marcos legais que reforçam a necessidade de proteção das áreas naturais, as pressões por manutenção de práticas convencionais seguem influenciando políticas públicas e moldando narrativas que afastam a sociedade da real dimensão do problema. Trata-se, portanto, de um desafio que exige não apenas conscientização, mas a construção de estratégias capazes de superar resistências estruturais profundamente enraizadas.

Natureza como ativo econômico e estratégico

A incorporação da natureza à lógica econômica passa, necessariamente, pela capacidade de mensurar com precisão e credibilidade o valor dos serviços ecossistêmicos. Ao fazê-lo, abre-se espaço para a consolidação de um mercado orientado à produção de natureza, do qual dependem, direta ou indiretamente, todas as atividades humanas.

Nesse novo paradigma, a percepção da área natural como elemento improdutivo é superada. Ela passa a ser reconhecida como ativo estratégico, essencial tanto para a sustentabilidade dos negócios quanto para a qualidade de vida das populações. Um ativo que demanda reconhecimento, valorização e inserção legítima nas dinâmicas de mercado.

As críticas recorrentes de proprietários rurais, que frequentemente se veem como os únicos responsáveis pela conservação, podem ser enfrentadas por meio de arranjos colaborativos com setores econômicos que se beneficiam dos serviços da natureza sem assumir diretamente o ônus de sua manutenção. Integrar a natureza aos modelos de negócio deixa de ser uma escolha e passa a configurar um requisito básico para a continuidade das atividades econômicas. A natureza, portanto, não pode mais ser tratada como recurso gratuito e ilimitado.

O custo invisível já está sendo cobrado

O reconhecimento do custo associado à natureza em nossas atividades representa um passo fundamental para a mudança de comportamento em escala sistêmica. Durante décadas, operamos sob a combinação de desconhecimento e uma percepção equivocada de abundância infinita. Áreas naturais foram, por muito tempo, tratadas como entraves ao desenvolvimento e, consequentemente, eliminadas em larga escala. Em diversas regiões do planeta, esse processo já ultrapassou limites críticos.

Hoje, enfrentamos a crescente escassez de bens naturais que foram explorados de forma intensiva e desordenada. Continuamos a depender dos serviços ecossistêmicos ao mesmo tempo em que reduzimos, de forma contínua, a base que os sustenta. Esse paradoxo evidencia que o custo de décadas de exploração já começou a se materializar. Ao comprometermos o equilíbrio que sustenta o funcionamento da natureza, comprometemos também a continuidade dos serviços essenciais à vida e à economia.

Sob a ótica empresarial, é comum a indagação sobre a necessidade de assumir novas responsabilidades. No entanto, essa análise precisa ser ampliada. Reconhecer o valor da natureza não apenas posiciona empresas como protagonistas de um futuro viável, como também constitui uma estratégia concreta de mitigação de riscos e redução de prejuízos já em curso.

Casos emblemáticos no Brasil demonstram esse movimento. Organizações como Grupo Boticário, Posigraf, C-Pack e o Complexo Pequeno Príncipe vêm adotando metodologias de mensuração de impactos não mitigáveis e realizando investimentos voluntários em conservação, com base em métricas consistentes, como as desenvolvidas pelo LIFE Institute.

Outro exemplo relevante é o da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), que mantém cerca de 19 mil hectares de Reservas Naturais e, a partir da aplicação dessas metodologias, estrutura a oferta de Créditos de Biodiversidade para organizações interessadas em avançar nessa agenda.

Uma exigência incontornável

A incorporação da conservação das áreas naturais e da biodiversidade à lógica dos negócios deixou de ser uma agenda opcional. Trata-se de uma exigência estrutural, que demanda indicadores robustos, compromissos de longo prazo e investimentos consistentes. Ignorar essa realidade não elimina seus efeitos. Apenas amplia os riscos.

 

Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental).

Fale com nossa
assessoria de
imprensa

Você também pode
gostar de ler...